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Antes de continuar, vou esclarecer o que a gastronomia significa para mim. É como muitas outras coisas, o meu diário de memória, um argumento de vida passada, bem vivida e é igualmente uma ferramenta de viagem.

Um artefacto de cultura, a nossa cultura, a cultura de cada um!

Quando me transferi para o Brasil, além do meu canudo e a minha vontade de recuperar, levei alguns utensílios que me ajudaram a continuar a minha vida e a não me sentir tão só. A gastronomia é uma boa companheira que não nos deixa esquecer o que somos, o que comemos, com quem convivemos.
Os sabores, os odores, as musicas que acompanhavam momentos privados com as namoradas, as reuniões ruidosas com os amigos, as refeições incontornáveis com a família e muito mais…

Nesse sentido achei que seria importante fazer a narrativa dos “petiscos” que me são queridos, contando também como mudou ao longo dos anos a minha convivência com esses “compagnons de route” os meus cozinhados preferidos e o seu “envelhecimento” ao percorrerem comigo esta estrada mais ou menos sinuosa.
O “Senhor Polvo” é um desses meus amigos que merecem uma referência especial.

É um animal marinho, cefalópode, com uma inteligência acutilante mas com alguns defeitos que o colocam com frequência numa situação de fragilidade. Por exemplo, quando ataca uma lagosta (tem bom gosto) esquece-se da moreia que está atrás de si com a sua dentadura afiada.
Este é o ciclo de vida, moreia, polvo, lagosta.

Fonte: José Fernando Queimado

O meu primeiro contacto com o Polvo aconteceu quando da leitura de livros de Jules Verne, nos meus 11/12 anos. Era um animal enorme e perigoso e nunca me passou pela cabeça de que seria, no futuro, um dos meus pratos favoritos.
De facto tudo mudou quando, mais tarde conclui que, em vez de ser comido por ele eu teria o prazer de o ver vencido e cozinhado na minha frente, dentro de um prato e pronto a ser digerido por um ser humano.

O contacto real aconteceu quando tinha 15 anos, em férias no Portinho da Arrábida.
Um pescador ensinou-me a forma mais prática de pescar pequenos polvos com latas de salsichas, os polvos entravam nas latas que usavam como refúgios e depois era só apanhar as latas e levá-las para a nossa casa na praia, entregá-los á cozinheira, o fiel carrasco, que lhe dava um destino cruel. Não me recorda de ter comido polvo nessa época, provavelmente seria parte de caldeiradas.

O Polvo volta de novo ao meu cardápio de pratos seleccionados nos anos 70. Não era um prato muito divulgado em Lisboa e era considerado de difícil tratamento culinário, porque tinha que ser batido para soltar a areia e depois tinha que se lhe retirar a pele.

Havia um restaurante no Cais do Sodré (ainda existe e tem presença no Facebook) o “Porto de Abrigo”, muito em voga entre os jovens da minha geração.
Para além da açorda de berbigão, o prato muito apreciado era o “Polvo Seco Grelhado”, que era acompanhado por arroz de tomate e molho de manteiga.

Fonte: José Fernando Queimado

O Polvo era dos grandes e vinha para a mesa com apenas dois tentáculos, muito tenro e delicioso quando banhado na manteiga quente, verdadeira manteiga com sabor a manteiga! Outra delícia, o Linguado (inteiro) gratinado. Todos estes pratos eram acompanhados por vinho branco “Evel Garrafeira” (Fornecedor da Presidência da República), Gaeiras, “Planalto”, Bucelas, “Colares”…alguns dos vinhos preferidos na época.

Não me recorda de ter comido polvo nessa época em outro restaurante em Lisboa.

Após a Revolução dos Cravos agarrei no meu canudo e emigrei para o Brasil, foi neste país que eu consolidei a minha amizade com o “Senhor Polvo”.

O meu restaurante preferido era o “La Fiorentina” na Praia de Copacabana, no Bairro do Leme.

Fonte: José Fernando Queimado

Foi ai que degustei o meu primeiro arroz de polvo semi-malandrinho, “Arroz de Polvo com Brócolis”. Nessa altura, em Lisboa, o arroz malandrinho era apenas conhecido na modalidade de cabidela, serrabulho ou de lampreia.

Fiquei deslumbrado e surpreendido com esta iguaria. O arroz é frito com cebola, azeite, alho, depois junta-se a água do polvo e brócolos previamente semi-cozidos e cortados em pequenos pedaços, misturados a 5 minutos do final da cozedura do arroz. Para acompanhamento tínhamos o “Chope” (imperial) no Verão ou um vinho em estações mais amenas.

Os vinhos brasileiros eram nessa altura intragáveis e tínhamos poucas opções. Os vinhos portugueses rareavam sendo os mais populares o “Dão Grão Vasco”, o “Mateus” e o “Casal Garcia“.

Eu que me considerava mais exigente, pedia sempre uma garrafa de “Concha e Toro”, um razoável vinho chileno.

Fonte: José Fernando Queimado

É servido húmido e sempre com uma pitada de gindungo líquido. Outra novidade, o empregado pergunta-nos sempre se queremos adicionar um fio de azeite (português). Na altura os restaurantes dispunham de latinhas de Azeite Gallo (o azeite importado era caríssimo) em que abriam um pequeno furo, o que acentuava o gosto do prato em questão. Uma maravilha!

Fonte: José Fernando Queimado

Voltei a Portugal em 1985 e cá continuei a solidificar a minha amizade com o “Senhor Polvo”. Neste tempo já se comia o arroz malandrinho, desde que a Junta de Turismo da Costa do Sol organizou um concurso entre os restaurantes da linha para apresentarem o melhor arroz de marisco.

Desde então encontro-me regularmente com o “Senhor Polvo”, nas suas diferentes indumentárias, “Filetes de Polvo” (no Porto), “Arroz de Polvo” (em toda a parte), “Polvo à Lagareiro” (com particular importância em Bragança)…

Passados estes anos e já no século XXI voltei aos prazeres mais simples, o meu amigo “Senhor Polvo” continua vivo, alegre e delicioso, mas ele compreende que a roda da vida é assim, volta-se sempre ao princípio, às origens e descobre-se que o que é mais simples é mais sincero, o sabor é original, é sóbrio e não está disfarçado!

Fonte: José Fernando Queimado

Por isso decidi e o “Senhor Polvo” concordou, passar a deliciar-me com o “Polvo Cozido com Todos” como podem verificar pela fotografia acima (cozinhado por mim). Nada melhor que este delicioso petisco, o “Polvo Cozido” com a cenoura e o feijão-verde, os ovos cozidos, tudo misturado com cebola e salsa ou coentros, regados abundantemente com azeite português, como o “Senhor Polvo” gosta. É claro, acompanhado por um bom vinho branco alentejano, que na minha mocidade ainda não era conhecido.

Bom apetite, uma vida longa para todos e para o nosso grande amigo, o “Senhor Polvo”.