Etiquetas

,

Hoje trago-vos o texto da mais recente convidada do “Recheio das Coisas”, Cristina Flora.

O maior espectáculo do Mundo

 Clarissa está em frente ao espelho oval e dá uns retoques na maquilhagem. Acabou de fazer amor com o seu amante no quarto de um hotel de luxo. O espelho é muito bem iluminado por dezenas de lâmpadas. Toda a decoração do espaço é algo excêntrica. Os cortinados são às riscas vermelhas e azul-bebé, e a colcha de algodão é amarela salpicada de círculos encarnados de uma textura diferente, algo entre o veludo e a lã. Os tapetes são verdes pontilhados de estrelas cor-de-rosa.
O amante é um homem de bela figura: muito alto, o cabelo já grisalho, e apesar de treze anos mais velho faz questão de mostrar um domínio absoluto na cama, realizando uma série de acrobacias que Clarissa ainda não sabe se são para ela apreciar, ou se não passam de puro exibicionismo.
– Querida, esse batom é o máximo. Fica-lhe bem o Absolu Rouge.

Erwin Blumenfeld

Clarissa olha-o através do espelho, desconfiada. Que mania tão irritante de lhe andar a mexer em tudo na carteira, como se já não lhe bastasse o outro lá de casa.
– Estiveste a mexer nas minhas coisas outra vez – proferiu, de sobrolho carregado. – O que esperas encontrar? Tu és o meu segredo. Não tenho mais.
– Eu não mexi em nada. Deixaste o batom em cima da cómoda e vi o nome dele por curiosidade.
– Ai, sim?
– Sim.
– Então, desculpa – pediu, sem sentir qualquer sinceridade.
– Vamos acabar o champanhe – propôs ele, erguendo a taça dela e voltando a enchê-la.
– A crise deixa-nos sem dinheiro, e mesmo assim bebemos champanhe e conseguimos vir para estes sítios…
– Isso é o teu marido que é um palhaço! Eu tenho dinheiro, e enquanto estiveres comigo terás sempre o melhor. És tão bonita. Mereces bem.
Clarissa devolveu-lhe um sorriso tão iluminado como o espelho. Gostava que o amante a elogiasse e lhe proporcionasse todas aquelas coisas fantásticas. Depois, quando regressasse a casa, à aflição do marido e às dívidas para pagar, às vozes dos desenhos animados na TV que viciavam as crianças, e ao cheiro das salsichas fritas com arroz, sabia que toda aquela ilusão desapareceria como por magia. E nenhum vizinho acreditaria que, uma hora antes, a D. Clarissa estivera a beber champanhe e a fazer um sexo circense com um dos maiores empresários da cidade.
– Gosto dos teus beijos, Clarissa – disse ele, brindando com ela. – Transportam-me às nuvens. Fazes-me subir bem alto!
– Obrigada – disse, ainda ligeiramente irritada com a suspeita da bisbilhotice. – Sabes… Se cintilo assim tanto para ti devias valorizar-me.

Untitled by Niko Guido

– Mas o que é que queres mais, minha tigresa linda?
– Não vamos aguentar esta situação durante muito tempo.
– Deixa-o e fica comigo.
– E as crianças?
– Ó céus! Já tivemos esta conversa dezenas de vezes! Deixa-los com o pai.
– Não me posso separar dos meus filhos…
– Então, vais condená-los à fome… Lamento.
– Mas tu és rico…
– E dou-te tudo mas é a ti. Não vou sustentar um bando de pirralhos.
– Nunca te iriam incomodar…
– Tu comigo não és mãe. Não é esse registo que espero de ti. O teu papel é o de amante, linda e airosa.
– És de um egoísmo…
– Já estou atrasado, princesa. Para a semana, vou levar-te a um restaurante tailandês fabuloso. O Júlio vai buscar-te perto do teu trabalho e leva-te o vestido que quero que uses. Vais adorar. A vida que tens não é nada. Comigo é que vives a sério. Nunca te esqueças disso.
Mas Clarissa não compareceu a esse jantar, ou a outro. Encontraram-na suspensa numa corda, a balançar. Dizem que parecia um anjo a voar.

Dear Doctor, I've read your play by David LaChapelle