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Conforme já tínhamos “falado” aqui, o meu convidado José Fernando Queimado vai fazer-nos viajar nas suas palavras, através das crónicas de “Viagens nas Terras dos Outros”.

Esta é mais uma das suas fantásticas colaborações com “O Recheio das Coisas”, e a vocês só vos peço que desfrutem e se deixem levar para locais onde, ou já estiveram ou certamente vão querer estar!

Desta vez vamos “Viajar” até Genipabú ~ Rio Grande do Norte no Brasil!

“Férias, o que são férias?
Para muitos são um pacote organizado de acordo com a disponibilidade financeira de cada um, o sonho criado pelas fotos e sugestões das agências de viagem! São uma interrupção do trabalho realizado ao longo de um ano e que visam, aparentemente, descansar o espírito e a mente para em seguida se recomeçar um novo período de labuta. O descanso do guerreiro!

O Nosso Estimado Colaborador José Fernando Queimado

Para outros são uma possibilidade de enriquecimento pessoal. Novos amigos, novas abordagens culturais, mundos novos.

Para mim, são sempre reencontros com antigos e novos amigos, de preferência em climas amenos e população amistosa.

Genipabú é isso!

Quando viajo para o Brasil passo por Natal e fico sempre numa pousada a norte desta cidade, em Genipapú, a cerca de 20/30 quilómetros de distância. Genipabú é uma vila que se situa junto a um rio com o mesmo nome.

Hospedo-me sempre na Pousada Villa do Sol, propriedade de uma família brasileira, oriunda de Brasília e que resolveu vender o seu património e enveredar por uma vida mais tranquila.

Conheci esta família em 2004 através de amigos comuns, são dois irmãos “comandados” pela mãe, uma senhora de ferro, de naturalidade americana que veio para o Brasil com o marido que era missionário.

A pousada é simples mas familiar, está localizada na foz do rio Genipabú no reencontro com as águas do mar.

O ambiente é gerado pela própria família dos proprietários, quando lá estamos temos sempre algo que fazer!  A meio do dia a matriarca convida-nos sempre para um “drink” (ela gosta de uma boa bebida), em companhia dos filhos, netos (nas férias escolares) e de alguns hóspedes que se tornaram amigos, o que permite uma grande cavaqueira à brasileira. São habitualmente originários de Brasília, S. Paulo e Natal.

Durante os dez anos em que vivi no Rio de Janeiro percorri o Brasil de lés a lés por razões profissionais e, de tudo o que ficou registado na minha memoria o mais marcante foi o cheiro e a cor da terra, o azul do céu e o verde do mar.

O Norte do Brasil tem esse condão de nos ligar  intimamente aos elementos básicos da natureza, o ar, o fogo, a água e a terra.

Essa terra vermelha irmã de África, o cheiro do ar e do mar, uma confusão de sentimentos e de emoções, a virilidade da vida que nasce junto da água no recanto de uma estrada.

Frutos e essências, povos e lamentos, canções e sonhos,  vidas ganhas e perdidas, de tudo isso ficou uma breve referência à minha passagem e ao meu encontro  com esse rio que abraça o mar e, depois enfastiado o repele com impaciência!

Estou sentado e estendo-me langorosamente, vejo o rio e o mar, vejo os meus pés gastos por andarem muito, mas sinto o mesmo prazer de os sentir.

Encostei-os a uma trave de madeira no terraço da pousada junto ao mar, corre uma brisa de sabor a peixe e a rio, e a água do mar empurra a água doce numa luta diária e inglória junto à foz, mas a luta é mansa e sem grande alarido. De vez em quando salta um pequeno peixe querendo voar no meio de uma estreita língua de areia, que separa o rio ainda baixo, do mar e onde minúsculas aves saboreiam restos de moluscos e de algas.

Ao longe a linha branca das ondas do mar.

Pequenas figuras deslocam-se nas lagoas com baldes que pressentem uma pesca fácil de meia dúzia de conchas, quiçá alguns moluscos vivos tirados das areias movediças do rio na sua saída para o mar.

Oiço gritos de pássaros empoleirados nas palmeiras e mais ao longe vejo e oiço motores de bugies passando nas balsas empurradas pelos locais. São para muitos o único meio de sobrevivência nesta terra de água e areia.

O povo é simpático, aparentemente passivo, quando tem a barriga cheia.

O rio continua o seu percurso na direcção contrária, empurrado pelo mar, no sentido da nascente. A pousada mistura-se com a natureza lado a lado com o rio. É construída de madeira que resiste a muitas gerações de Humanos!

Eu olho Genipabú.

Sinto-me cheio daquele sentimento de eternidade, como um Deus que vê o mundo de outra perspectiva, sem emoção, sem sentido de tempo, apenas vê aquilo que criou e não intervém, não se alegra nem se entristece, não tem remorsos nem orgulho, simplesmente observa!

É essa capacidade que torna o Homem mais puro e mais completo.

Várias vezes passei por Genipabú, envelheço mas o rio continua o mesmo, o que muda é minha pele e, os Deuses por lá continuam”!