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Nesse Verão, no final dos anos 50, (eu tinha então 14/15 anos) não fui viajar como era habitual com os meus pais, para o estrangeiro. O meu tio convidou-me para eu ir para a Arrábida, passar as férias.

Fiquei contente. Eu gostava de praia mas as minhas experiências habituais eram pouco gratificantes, no Estoril, só de manhã, e á tarde, vestido para o almoço, na casa de familiares.

A Arrábida tinha outro encanto. A casa era na praia, a vida era ao ar livre. O meu tio tinha um barco a motor, para pescar e fazer esqui aquático. Era uma perspectiva de boas férias.

O meu tio tinha um “Carocha” de cor de laranja. Partimos numa sexta á tarde a caminho do Terreiro do Paço, para entrar num cacilheiro, pois na altura era o único meio de transporte para a “outra banda”. Ficámos numa fila de carros em frente ao barco e esperámos, pachorrentos, o encher e esvaziar dos “botes” olhando o seu rasto na água do rio, uns na direcção de Cacilhas outros regressando, sempre cheios de pessoas e de carros.

Fonte: Blog Restos de Colecção

Fonte: Google Imagens

O barco atracava, numa manobra profissional do piloto. O motor fazia marcha-atrás, a hélice brotava força e espuma. O barco encostava lentamente ao cais, com a ajuda dos marinheiros e com a protecção de pneus velhos pendurados na sua carcaça. O ruído surdo do batimento da borracha indicava aos marinheiros a sua próxima tarefa. Atiravam as grossas cordas para o cais e prendiam o navio a ganchos de ferro.

Depois desciam as comportas ao nível dos carros e deixavam os veículos saírem ordenadamente. Ao mesmo tempo saíam os passageiros, os peões, em passo apressado.

Quando chegava a nossa vez, pagávamos o bilhete e conduzíamos o carro de um terreno firme para um “Parking” flutuante. Os carros em fila encostados uns aos outros. As pessoas entravam apressadamente, algumas para ocuparem os únicos lugares sentados, no interior da embarcação.

Fonte: Ante-et-Post weblog

Os restantes, em pé ou junto às varandas, para gozarem da paisagem e dos odores do rio, do vento morno no final da tarde. Eu cheguei-me á popa do cacilheiro, para ver o rasto de espuma e a cidade brilhando, ficando para trás.

De Cacilhas corremos na direcção de Setúbal. Depois havia um desvio para a direita e entravamos na pequena vila de Azeitão, uma rua estreita ladeada por casas solarengas de pedras velhas e jardins de arbustos.

Depois subíamos a serra, com os seus encantos e contrastes. Da estrada víamos os contornos da serra. Junto ao mar, a terra era subitamente cortada pelo vácuo dos penhascos. Os cheiros mudavam á medida que nos aproximávamos da costa da Arrábida, de arbustos nunca antes conhecidos, da mistura da maresia com as delícias dos odores e das imagens, da paisagem mediterrânica.

Fonte: Homes Point2

Finalmente o carro atingia um dos flancos da serra. Virávamos á direita e descíamos ao encontro do Portinho da Arrábida. Para um lado estrada ficava a praia de Alpertuche, isolada, uma pequena praia de pedras, rodeada de encostas alcantiladas. Lá em cima um grupo disperso de moradias de pedra, de famílias endinheiradas, a maior parte do Alentejo profundo.

Na estrada, o pequeno “fusca” nos conduzia ao nosso destino, passando pela estalagem, á nossa esquerda, a casa dos pilotos da barra, o forte, banhado pelo mar, e finalmente por uma pequena azinhaga que terminava na praia do Portinho. Era antigamente um pequeno recinto de pescadores, agora transformado num estacionamento para automóveis, dois restaurantes suspensos em estacas, e algumas habitações de suporte das férias dos amigos da família Palmela.

O Portinho é o remate de uma serra rica em botânica, imponente e selvagem. Virada a sul, acolhe um ambiente quase mediterrânico.

Fonte: poramoralisboa.com

Aqui o cheiro do mar confunde-se com mil e um odores de plantas do sul. Montanha verde, inacessível. Em contraste, o mar azul era pacífico, sem ondas, um “lago” imenso que percorre lado a lado a serra, de Sesimbra a Setúbal. No portinho esse mar é perfurado por uma pequena ilhota, a “Pedra da Anicha”. A praia era larga, comprida, e côncava, terminando no “Monte de Areia”, nas marés cheias.

Fonte: TrekEarth.com por Aires Santos

O percurso para a casa do meu era alternativo. Ir pela praia, se chegava mais tarde, ou chamar um barco de pescador conhecido que nos levava directamente á casa na praia. Normalmente era o mesmo pescador, o “Zé Repolho”, que tratava do barco do meu tio e tinha cartão de marinheiro. O Zé era um homem forte, moreno, nos seus quarenta anos, esperto e abusador, mas um excelente mergulhador, e um criado às ordens da nossa família.

Nesse tempo o barco era a remos, levava cerca de quinze minutos para chegar ao nosso destino. Chegávamos ao entardecer, que no Portinho era precoce, devido á sombra da serra.

Ouvíamos o chapinhar dos remos na água, e na praia, os banhistas levantavam ferro para os seus destinos. Era uma altura deliciosa do dia, a longa praia á disposição de meia dúzia, os proprietários das casas pré-fabricadas, e alguns campistas dispersos. Não havia electricidade, apenas candeeiros a petróleo, nas casas e nos poucos restaurantes, pequenas cabanas de madeira, local de reunião dos pescadores, e para as “bicas” dos moradores.

Fonte: olhares.pt por João Neves

Tínhamos um grupo de pessoas á nossa espera, nomeadamente alguns amigos do meu tio que repartiam as suas férias na mesma casa, e como sempre, uma cozinheira da fábrica da Amora, a fábrica de rolhas e granulados da cortiça de um familiar.

Descíamos alegremente do barco, depois de termos descalçado os sapatos e as meias, saltando pelo lado da proa para as águas frias da baía. Por vezes éramos transportados às costas pelos marinheiros e aterrávamos suaves e secos na areia da praia.

A praia era inclinada, especialmente quando da maré vazia. Tínhamos que percorrer cem metros de declive com as nossas malas até chegarmos á varanda de madeira da casa do meu tio.

Era uma casa pré-fabricada mas de boa qualidade. Entrava-se por uma pequeno degrau lateral direito para uma varanda. No final havia uma porta do lado direito que dava para uma sala razoável, com motivos marítimos, com um mapa para navegadores da costa Sesimbra – Setúbal, no centro havia uma mesa que acolhia os moradores e os amigos do meu tio às horas mais importantes do dia, que eram as refeições. Era uma sala com soalho de madeira corrida. Ao fundo um pequeno corredor que dava para as traseiras da casa, e á direita a única casa de banho com água de um furo artesiano de água salobra. A sala era alegre, confinava com uma pequena cozinha sempre habitada pelos “gourmets” habituais e pela gorda cozinheira. Do lado direito, junto às janelas que davam para a praia, subíamos uma escada em semi-caracol para os quartos de dormir. Eram quatro quartos, três de casal e um de solteiro.

Voltando para trás, de costas para a montanha, deparávamos com três janelas que abriam para aquele espaço generoso sobre a praia, o mar azul de diversos tons e o grande universo que era o horizonte. Ao longe, á direita, o Portinho da Arrábida, e uma casa semi destruída que acolheu em outras épocas o único navio salva vidas, e o forte, no término da azinhaga.

Fonte: Galeria & Photomaton blogspot

Á esquerda, o “Monte de Areia”, a “Pedra da Anicha”, e mais longínqua, a língua de areia da península de Tróia.

Fonte: olhares.pt por Carlos Neves

O meu tio era então um jovem de trinta e pouco anos, cheio de energia, um bom “vivant”, solteiro, que dava atenção aos seus sobrinhos, mas de humor irascível, gostava de dar ordens e zangava-se por qualquer coisa mal feita. Mas era um homem bondoso, simples e camarada, que conseguia chegar ao nível dos mais jovens, o que era raro naquela época.

Era considerado o “enfant terrible” da família. Contavam-se as suas aventuras amorosas e as suas várias tentativas fracassadas de casamento. Foi feliz. Era um homem inteligente, amável qb, especialmente para com as senhoras. Uma personalidade cativante e ou mesmo tempo odiosa. Era o que chamam agora “what you see is what you get”. Podia ser muito carinhoso para os sobrinhos mas quando alguma coisa corria mal, insultava-nos, “não sabes fazer nada” ou “é um grande mandrião”.

Mas eram apenas palavras, e rapidamente mudava o rumo, dava-nos uma palmada amigável, e tudo era apagado. Isso não evitava que os mais chegados tivessem um carinho especial por esse tipo jovial, que vivia o dia (“seize the day” ou “carpe diem”), mas que gostava que todos nós partilhássemos dessa alegria, dessa forma de gozar a vida.

A vida quotidiana na Arrábida era mais ou menos uniforme, sem ser monótona, simples e agradável. Havia eventos diários, que eram os passeios de barco, o esqui aquático, as boas refeições, os encontros com os amigos, os passeios na praia.

Os dois meses dividiam-se entre duas rotinas, com e sem o meu tio, que apenas tirava duas semanas de férias. O resto do Verão, vinha nos fins-de-semana, às sextas-feiras e voltava a Lisboa, nos domingos á noite.

Depois vinham as deslocações a Setúbal, os passeios a Tróia, a pesca da lula e do polvo, a pesca ao candeio, a pesca no mar alto, para apanhar Corvina, a pesca submarina, a pesca do linguado com arpão na maré vazia, na praia.

A rotina diária era semelhante, visto estarmos longe da civilização. Começava com o pequeno-almoço, sempre com muitos convivas, já que a casa estava sempre cheia. Nos períodos de Verão éramos oito, da casa, e por vezes mais dois ou três convidados, das outras casas.

Depois tínhamos duas ou três alternativas. O meu tio levava-nos de barco até Tróia. Era um passeio de um dia. Levávamos sandes, ovos, pastéis e refrescos. Como Tróia era deserta, tínhamos que usar os nossos toldos, toalhas etc.

Fazíamos esqui aquático, alguma pesca submarina. Por vezes encontrávamos outras famílias da Arrábida que se tinham deslocado em vários barcos. O meu tio dava-se bem com todos eles, especialmente os alentejanos, que estavam no negócio da cortiça.

O outro passeio era ir de barco até Setúbal. Íamos nos dias da praça, para comprar peixe e outros mantimentos. Era um percurso agradável já que podíamos apreciar toda a paisagem da costa, passando pela Pedra da Anicha, todas as praias até Setúbal. O único senão era a vista da fábrica de cimento da Secil, que já era degradante para o meio ambiente.

Quando não organizávamos passeios fazíamos caça submarina na Pedra da Anicha, fazíamos esqui aquático, ou íamos para o mar alto para a pesca da Corvina. O meu tio também gostava de pescar robalo á linha, com o barco se deslocando. Outras vezes eu embarcava com os pescadores, para apanhar lulas, com uma tanoeira.

A outra forma de caçar moluscos era a colocação de várias latas abertas que podiam servir de refúgio aos polvos, e que eram também um óptimo petisco.

O Zé Repolho era o nosso pescador predilecto, e o condutor do barco do meu tio. O Zé fazia pesca submarina e trazia-nos regularmente excelentes santolas. Por vezes pescava também linguados com arpão, na Maré vazia, junto á praia.

O meu tio tinha também negociado com um pescador uma forma de ser abastecido de bom peixe quase todos os dias.

Comprou-lhe uma rede, e ele pagava em peixe. Assim, á hora do almoço tínhamos quase sempre salmonetes e robalos para grelhar.

Ao fim da tarde, quando os turistas regressavam a casa, apenas restavam os proprietários das casas da praia. O sol caía cedo atrás da serra. O mar ficava com um tom cor de fogo, espelhado e calmo. Era a melhor hora para praticar esqui na baía. A água á superfície parecia azeite fino e os esquis cortavam-na como faca em manteiga.

Os que ficavam na praia junto á nossa casa sentavam-se confortavelmente em cadeiras de palhinha e bebiam com prazer as bebidas que a cozinheira preparava antes do jantar.

Era fantástico, uma sensação de paz, de contemplação daquele espectáculo natural. A profusão da cor branca da areia, o mar, um lago multicolorido. O contraste da serra verde-escuro com os seus picos incendiados pelo azul vermelho do sol poente, já escondido mas ainda não adormecido. Depois vinha uma brisa quente misturando o cheiro de maresia vindo da Anicha, com o da urze do sopé da serra da Arrábida.

Depois vinha o jantar, normalmente era carne, para compensar a contínua alimentação de frutos do mar da região. No início não havia electricidade, apenas um pequeno gerador que alimentava apenas a sala de jantar e um pequeno gira discos para alegrar as festas com a garotada, os filhos dos proprietários das casas e alguns campistas.

É com prazer que recordo os meus primeiros passos de dança. Eu não sabia dançar, e por isso tinha vergonha de me dirigir às miúdas da minha idade, que eram mais “avançadas”, olhavam para os rapazes mais velhos, que já tinham alguma malícia (para aquela época), e conseguiam namoriscá-los com mais á vontade.

Mas o ambiente da praia tornava as coisas mais fáceis. Nessas reuniões caseiras, o meu tio ia buscar meninas para eu dançar. A primeira foi uma moreninha, graciosa e sorridente. Face á minha timidez inicial, e á minha hesitação, ela resolveu imediatamente esta embaraçosa situação.  Sussurrou-me ao ouvido: “Dançar é fácil, dois passos para a direita, um para esquerda”.

Desta forma iniciei um novo percurso, uma nova atitude perante o sexo oposto. “Dois para a direita, um para esquerda”, pela noite fora, embalados pela noite, pelo ar do mar, e por aquela moreninha que me despertou para uma outra vida.

Eu passava quase dois meses de férias naquele paraíso. Era tratado como igual por todos, já me sentia adulto, ouvia e participava das conversas dos adultos. Tinha amigos, começava a desabrochar, a olhar-me ao espelho, a sentir a minha sexualidade.

Resumindo, as férias na Arrábida eram autênticas viagens, para um miúdo como eu, agora com sessenta e sete anos. Recordações preciosas, viagens ao mundo dos adultos e da natureza. Turismo pedagógico, construção de uma personalidade, que recomendo aos mais novos.